Essas coisas, logo aí embaixo... Palavras ditadas por um Ghost Writer.

3 de jul de 2010

Songs for the Deaf

Lançado em 2002 pela banda estadunidense – americanos somos todos, latinos ou anglo-saxões – Queens of the Stone Age, “Songs for the Deaf” mistura melodias intrincadas, compassos aparentemente descompassados e, acreditem, variações rítmicas bastante distintas para uma banda dita ‘pesada’, como valsas e ritmos mexicanos.

O disco do guitarrista Josh Homme (único membro fixo do QotSA) conta com muitas participações especiais. A principal delas, de Dave Grohl, baterista que alcançou o estrelato como integrante do Nirvana e consolidou-se como músico (ou nem tanto, comum acordo entre perfilado e escriba acerca do comentário) ao criar o Foo Fighters e participar de inúmeros outros projetos.

Canções para a surdez. A frase – tradução tosca do escriba aproveitador da liberdade poética – de interpretações dúbias, que não afirma nada categoricamente, é uma síntese certeira de Guilherme (e um tanto nebulosa, assim como ele).

O garoto gravataiense, filho de um porto-alegrense e uma moça vinda de Bagé, freqüenta este mundo de ‘sons mil’ há 20 anos. Ainda criança notou que algo de estranho ocorria em um de seus sentidos – a rubéola que a mãe teve durante a gravidez deixou uma ‘lembrança’. Ele buscou o veredicto materno. “Ela disse: vou falar no teu ouvido uma frase, se tu não entender, é porque não ouve.” A frase era “Quer ganhar um picolé?”. Guilherme não ganhou.

De nada adianta o ouvido esquerdo, fato que o faz se colocar sempre à esquerda das pessoas com quem conversa. Mas dizer ‘nada’ é exagero. Numa cidade onde os cidadãos reclamam da péssima relação custo-benefício do transporte coletivo, ele não sabe o que é pagar passagem de ônibus – exceto em linhas semi-executivas, nas quais transita raramente.

Taxativo, afirma: “Nas vezes em que preciso pagar para andar de ônibus pode saber, algo de errado ou estranho acontece.” (Frase confirmada pelo escriba, que acompanhou Guilherme em sua última viagem paga e, de forma incomum, esqueceu mochila com roupa, carteira, pen drives, caderneta, caneta e afins no interior do coletivo enquanto desembarcava na capital fazendo piadas sobre o amigo semi-surdo.)

Mas se engana quem pensa que a particularidade de Guilherme o atrapalhe no dia-a-dia, ou o destaque como luzes de Natal. Nos tempos de infância, algumas vezes, graças a professores que fazem questão de anunciar aos quatro cantos da sala de aula – ok, por boas intenções – coisas como “temos um coleguinha especial, vamos dar atenção a ele”. Crianças geralmente são mais cruéis com ‘pessoas especiais’, mesmo que involuntariamente, do que tolerantes.

Apesar disso, essa não é a razão pela qual ele ainda não completou o Ensino Médio, ‘trancado’ em 2009 e no qual repetiu de ano “três ou quatro vezes”. Para a amiga Bruna Junges, o fato comprova “a ineficiência do nosso ensino, que é incapaz de cativar seus alunos”. Mas o convívio social na Escola Tuiutí lhe rendeu outros dividendos. “Foi mais proveitoso fora da sala [de aula], bebi, conheci outras substâncias, muitas pessoas. Aprendi coisas novas.”

Uma colega foi preponderante na mudança do rapaz, antes um protótipo padrão de ‘metaleiro’. Camila foi sua namorada por cerca de um ano e lhe apresentou a arte e a música, como MPB e o rock dito ‘clássico’, de forma ampla – apesar dela mesma parecer uma metaleira-cuca-fechada.

Aí o (único) ouvido do Guilherme – que já recebia elogios por seus dotes no violão – se abriu para novidades. Hoje ele tem mais de 250 Gigabytes das mais variadas discografias. Queens of the Stone Age, Gnarls Barkley, Radiohead e Portishead dividem espaço com Novos Baianos, Lobão, Jorge Ben e Chico Buarque – talvez este último o ídolo máximo, uma briga ‘acorde a acorde’ com John Frusciante que, quase ninguém sabe, já teve menos de 20% de sangue no corpo na época subsequente a sua (primeira) saída do Red Hot Chilli Peppers, quando se afundava no vício em heroína.

Evasão escolar e Gigabytes de música têm uma ligação inusitada: trabalho. Guilherme deixou a escola em 2009 por não conciliar os horários de estudo com o emprego na Top Service, que presta serviços terceirizados a outras empresas, como a Dana, onde ele atua diariamente na estação de tratamento de efluentes – o que rende piadas exageradas sobre lixo tóxico aos amigos.

E os sons da surdez? Como guitarrista, há mais de cinco anos Guilherme tenta montar bandas. Todas acabaram, exceto a última. Junto a um talentoso guitarrista canhoto de referências tão ou mais amplas, criou um ‘embrião musical’ intitulado Beggar Twins, disposto a dar vazão a sons influenciados tanto pelas guitarras desconcertantes do já referido QotSA como ao mais denso trip-hop. No final de 2009 outro garoto sem garota se uniu à dupla, trazendo uma bateria, expansão e indefinição sobre o nome do grupo até hoje.

“O grande problema dele é gostar demais das referências. Isso atrapalha um pouco os ensaios. O Guilherme por vezes esquece o trabalho de criação, propriamente”, afirma o amigo canhoto, aluno de uma universidade do Vale dos Sinos e estagiário nas horas vagas. Guilherme é possessivo quanto aos colegas de banda e tem certo ciúme de seus projetos paralelos na área musical – como os shows de bandas independentes que o amigo organiza, motivo de tiradas irônicas do perfilado.

A banda sem nome é o grande projeto do momento. A partir do segundo semestre, Guilherme e os dois amigos e colegas de 'trabalho' pretendem se mudar – só de mala – para Porto Alegre. A Gravataí da infância não tem espaço (ou público suficiente) para a proposta musical do garoto que anda por aí com seu par de fones de ouvido, mesmo que escute somente um deles.

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OBS.: Esse perfil foi a última tarefa da disciplina de Redação Experimental em Revista, que eu cursei nesse semestre lá naquela Grande Instituição de Ensino 'Superior' do Vale dos Sinos. E uma homenagem a um amigo e 4º ou 5º guitarrista destro da minha predileção, hahaha - porque canhotos não entram em listas!
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